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Transcrevo abaixo parte da troca de e-mails que tive com o Janer a respeito da decisão do STF liberando a Marcha da Maconha.

 

MENSAGEM DO JANER

 

Do Raphael Piaia, recebo:

“Os maconheiros seriam seres moralmente superiores à turma do crack “. Come on, Janer… Não são? Não dá para comparar, basta lembrar teus tempos de universidade. Lembre de alguma guria linda, marxista, que brigava contigo no começo da noite por conta das tuas posições muito “reacionárias”, depois acendia um pouco de cannabis e no final da noite já estava dispersando toda a raiva que tinha de você através de beijos em você. Não há semelhanças, ao menos nesses casos, entre usuários de maconha e usuários de crack.

De mais a mais, pelo tempo que conheço você (leio teus textos desde que eu tinha o quê? 16, 17 anos? Hoje tenho 23), diria que a decisão do STF a favor da Marcha da Maconha condiz com o modo como pensamos, sob pena de se levar ao extremo a idéia de democracia indireta, de forma que só possamos nos expressar quando estamos elegendo esse ou aquele imbecil que, esse sim, vai falar por nós no congresso. Depois da eleição, fechamos os lábios e nos curvamos ao mandato concedido enquanto durar a legislatura (ou as legislaturas, no caso dos senadores). Parafraseando, salvo engano, o ministro Peluso, estaríamos diante de pura fossilização legislativa.

Abraço.

Vamos por partes, Raphael. Para início de conversa, sempre fui pela liberação das drogas. Ou melhor, era. Não há mais sentido em lutar pela liberação das drogas por uma razão elementar: elas há muito estão liberadas. Ao proibir a marcha da maconha e liberar a tal de marcha pela liberdade de expressão os juízes do Supremo estão trocando seis por meia dúzia.

A dita marcha pela liberdade de expressão de sábado passado foi em verdade uma marcha pela descriminalização da maconha. Marcha ridícula, já que o consumo da maconha, como disse, há muito deixou de ser crime. Deste ridículo participa inclusive um dos vultos insignes da pátria, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, depois de velho, anda liderando mundo afora uma cruzada para liberar o que há muito foi liberado.

O que é crime – e nisto vai outra hipocrisia – é o tráfico. Que história é essa? Comprar você pode. O que não pode é vender. É a hipocrisia inversa do que ocorre com a prostituição em vários Estados americanos e em alguns países europeus. Uma mulher pode vender seu corpo. Crime é comprá-lo. Imagine se você pudesse comprar vinho, mas fosse proibido vender vinho. Ridículo.

Mas o tráfico será mesmo crime? Apanho dados antigos, de seis anos atrás. Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas da ONU de 2005 o tamanho do mercado das drogas em todo o planeta era de US$ 322 bilhões (R$ 510 bilhões) em vendas ao consumidor final, o que equivalia na época a 0,9% do Produto Interno Bruto Mundial. O volume de drogas no atacado (US$ 94 bilhões) representava 1,3% das exportações globais, e excedia em larga escala o comércio internacional de carne, trigo, café e derivados do tabaco, entre outros produtos. A venda de maconha vinha na frente – US$ 113 bilhões, no varejo – seguida pela cocaína, opiáceos (heroína, morfina), drogas sintéticas (anfetaminas, ecstasy) e haxixe. A maconha, aliás, foi a única droga que apresentou crescimento significativo do número de consumidores – 15 milhões a mais em relação ao último relatório.

Não me venham dizer que o tráfico é crime. Um mercado de tais dimensões é mercado livre, ora bolas. As distinções que os vultures do Supremo fazem em droga para uso pessoal e para caracterizar o traficante são outra bizantinice do Judiciário. Se ando com a maconha suficiente para um baseado é uso pessoal. Mas e se eu costumo fumar dez baseados por dia é também consumo pessoal. Se levo quantidade para dez doses, seria eu um traficante? Se o traficante traz apenas um baseado de cada vez, não poderia ser quantidade para uso pessoal? Os senhores juízes, no fundo, estão querendo cortar um fio de cabelo em quatro, como dizem os franceses.

Cá na pátria amada, de vez em quando a polícia apreende uma carga maior de droga, mais para mostrar serviço do que para outra coisa. A cracolândia, por exemplo. Há um bom meio milhar de drogados cachimbando à luz do dia. Todos os dias. Obviamente há quem os abasteça. E não serão um ou dois traficantes que darão conta do recado. São necessários dezenas. Mais ainda: se antes havia uma cracolândia no singular, hoje há cracolândias. Tanto em São Paulo como nas demais capitais do país.

Dito isto, vamos ao resto. Não vejo superioridade moral alguma dos maconheiros em relação aos – como direi? – craqueiros. Há uma diferença social e econômica. A maconha, desde a época dos Beatles, virou erva da moda. Para uso preferencial de gente fina, os universitários. O crack custa baratinho e é coisa de pobretão. Outra diferença é a letalidade do crack. É curioso observar como os zumbis da cracolândia nos chocam e os shows de rock e as raves, onde a droga corre solta, nos deixam indiferentes. Quando roqueiros apologistas das drogas vêm ao Brasil, multidões lotam estádios. Com a proteção da polícia. E sem que o STF fale em apologia da droga.

A diferença é que os honestos pais de família da classe média sabem muito bem que seus rebentos usam drogas nos shows e raves, mas jamais gostariam de vê-los entre os marginais da Santa Ifigênia e cercanias.

Sim, convivi com universitárias chegadas à cannabis. E ainda convivo. São pessoas que fazem – eu até diria: faziam – uso moderado da droga. Já fui convidado para o ritual. Exceto duas ou três tragadas em um distante verão em Estocolmo, nunca fumei. O que me desagradava não era tanto a droga, mas o caráter gregário dos consumidores. Sempre fumavam em grupo. E eu nunca gostei de grupos. Sou partidário do tetê-à-tête. Mais de seis pessoas, para mim, é multidão. No entanto, a bem da verdade, tenho de admitir que fumei muito mais maconha do que tabaco em minha vida. Se dei três tragadas em um baseado, em um cigarro foi uma só.

Não, Raphael, não sou contra a liberação das drogas. Como venho dizendo há anos há muito estão liberadas. Se o álcool e o cigarro não têm restrição alguma, por que teria a maconha? Nunca ouvi falar que alguém tenha morrido em conseqüência direta do uso da cannabis. Em meu boteco, sete clientes de uma mesa ao lado da minha já deram baixa. Dois de cirrose. E cinco em função do cigarro.

O que me causa espanto é essa postura tatibitate do Judiciário e das autoridades, que permitem o consumo das drogas mas proíbem o comércio, que autorizam passeatas em prol da maconha mas proíbem a apologia da maconha. Decidam-se, senhores!

http://cristaldo.blogspot.com/

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MINHA MENSAGEM

 

Não diria que é bem assim, Big J. Essa história de que usar maconha não gera mais nenhum reflexo penal é falácia difundida há algum tempo. A pena privativa de liberdade pode não estar mais prevista, mas há outras modalidades de pena (v.g. serviços à comunidade, multa, etc). Em todo caso, mais grave do que qualquer das penas anães previstas no 28 da 11.343 é como isso pode barrar alguém num concurso público (o que pode ferrar com muitos universitários). Usemos a mim como exemplo, eu que ano que vem vou para o último ano da faculdade. Semana passada tive que ir atrás de alguns documentos, dentre eles a certidão negativa de antecedentes, por conta de um concurso de estagiários do MP no qual fui aprovado. Ora, tivesse eu algum dia sido pego fumando cannabis com uma marxista linda (não que eu já tenha feito isso, evidente, óbvio e claro que não!, afinal uma confissão como essa também pode me ferrar num concurso), eu não poderia começar o estágio. Depois de formado, não poderia enfrentar nenhum concurso, nem oficial, nem analista, nem promotor, nem coisa nenhuma. Esse é um dos problemas gerados pela resistência à descriminalização. Amanhã você cruza na rua com um policial mais ignorante (e esses existem aos montes nas polícias) e o sujeito resolve te levar para a delegacia por ter flagrado você usando. Pronto, acabou a história para quem foi pego. Aliás, conheço não poucas pessoas que usam ou já usaram cannabis e dominam/interpretam melhor o Direito do que boa parte dos conservadores bitolados por aí.

Quanto a diferença entre  maconheiros e “craqueiros”, come on again, Janer! Penso que é possível aferir o nível de irresponsabilidade do sujeito pela droga (maconha ou crack) de que ele faz uso. Maconha não é tão mais cara que o crack assim, só é muito menos perniciosa. A velocidade com que você pode se viciar em crack, os reflexos físicos disso e o próprio nível de dependência do crack é muito maior e praticamente incomparável à maconha. Não é preciso ir muito a fundo para concluir isso, basta observar quem usa, puro empirismo.

Por fim, sobre a quantidade de drogas suficientes para determinar se você é usuário ou traficante, não vejo solução melhor do que a adotada pela Lei, ou seja, analisar o caso concreto. Como você mesmo disse “Se ando com a maconha suficiente para um baseado é uso pessoal. Mas e se eu costumo fumar dez baseados por dia é também consumo pessoal”. Se tivessem colocado na Lei um número específico, a injustiça seria certa.

Abraço,

Raphael

P.S. Sobre a hipocrisia moralista com a prostituição nos EUA e no Velho Continente, nós não nos diferenciamos tanto assim. Dá uma olhada depois no 227 do CP, é algo surreal. Coisas que não saíram de lá mesmo depois das alterações de 2009. Eu convenço um amigo mais pudico a dormir com uma garota que tem uma queda por ele e posso estar sujeito ao tipo…

O MAL VIRÁ DO NORTE?

Passei coisa de metade do mês de dezembro no sul. Alguns dias em Santa Catarina, outros mais no Rio Grande. Serve como catarse para mim. Uma viagem que tento fazer com alguma freqüência. O sul é das poucas regiões no país, ou talvez a única, onde ainda me sinto em casa, onde me sinto relativamente bem. Daquelas onde surge o sentimento de admiração por algo pelo qual ainda vale a pena lutar nessas terras mancebas da América do sul.

A beleza natural, o clima e principalmente o povo me fascinam. O fascínio, porém, não se resume apenas às garotas – absolutamente belas – ou às livrarias – também em abundância e com aquele toque pessoal no atendimento -, ele está na cultura sulista, no aspecto comportamental das pessoas. A imbecilidade que soa natural e prosaica para um paulista como eu ainda causa espanto por lá. Lembro de ter rido bastante quando um amigo que fiz no hotel, um dos funcionários,  se revoltou por um sujeito ter abandonado uma garrafa de cerveja vazia num muro baixo de uma casa – ele queria ir até lá e pedir ao sujeito para jogá-la no lixo. Lembro também dos carros que não precisam de semáforo para parar enquanto os pedestres atravessam. Lembro do encantador sotaque cantado. Enfim, são coisas pequenas que acabam cativando. Em todo caso, é quase impossível afastar o sentimento de incômodo. Incômodo porque sua mente não para de te lembrar que quando coisas como essas te impressionam, é sinal  de que há algo de muito errado com teus conterrâneos do sudeste para cima.

Algo parecia podre no reino do sul, entretanto. Hordas de nordestinos, em excursões ou individualmente, estavam em quase todos os lugares. Acho que fui salvo apenas no interior, mas não pude deixar de lamentar pelo tempo em que apenas pessoas mais ao sul visitavam o norte do país, não o contrário. Na cachoeira do caracol, enquanto meu pai tirava uma foto, uma deles gritou (ainda que eu acredite que esse tom é natural para alguns deles) que ela seria a próxima, praticamente empurrando meu pai. Em outro lugar, numa casa colonial alemã com uma das melhores apfelstrudel que comi, outra deles assoviou perguntando para a senhora dona da casa, no tom mais autoritário e imbecil possível: “ Escuta, quanto é isso aqui, ein? Quanto é?”

Negros, ameríndios, assim como gente com fenótipo nordestino também encontrei por lá. Gente educada, amável e realmente sulista. Mas gente cuja família já estava lá há gerações. O problema, em verdade, é o mesmo que o do outro lado do oceano: a quantidade excessiva de migrantes e a impossibilidade de absorvê-los nesses números.

Nordestinos podem estar  para o sul como muçulmanos estão para a Europa. Tempos tristes no velho continente, tempos tristes ao sul da manceba América. Ok, talvez a subversão não seja tão grave aqui como é a causada pelos muçulmanos lá, mas não consigo deixar de notar semelhanças…

ZÉFIROS

Mantive a mesma introdução (abaixo) que escrevi há alguns anos.

 

Esse é um daqueles contos que escrevemos por tédio. Quando os delírios da febre ou as promessas de uma taça de vinho nos fazem pensar em inspiração. Foi escrito anos atrás e o encontrei por acaso. Pertence tanto ao lixo como a essas páginas eletrônicas. Se eu tiver paciência, o continuo. O mais provável é que não.

 

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“There is but one truly serious philosophical problem, and that is suicide. Judging whether life is or is not worth living amounts to answering the fundamental question of philosophy. All the rest — whether or not the world has three dimensions, whether the mind has nine or twelve categories — comes afterward. These are games; one must first answer.”

 Albert Camus, The Myth of Sisyphus

 

Quando você sabe que vai morrer nada realmente importa. Tudo é como um sonho, você tem consciência que está andando, vê imagens passando a sua frente, pode até saber que está interagindo com outras pessoas, mas não tem controle sobre nada disso. É como se alguém fizesse tudo por você. É mesmo como num sonho.

Meu nome é Vincent, peço desculpas por essa introdução um tanto macabra. O fato é que acima descrevo uma ocasião do meu passado. Para ser mais preciso, algo que ocorreu há uns dez meses. Dez meses… Ainda parece que foi ontem.

Eu costumava ter uma namorada, seu nome era Lúcia. Lúcia não podia exatamente ser definida como a garota dos meus amores. Estava mais para, digamos, só uma garota. Imagino que nosso namoro era normal, mesmo a situação que estou prestes a descrever deve ser uma das coisas mais prosaicas para os casais comuns. Em todo caso, esse incidente aparentemente sem nenhuma peculiaridade maior colocaria em movimento uma corrente de acontecimentos que terminariam por determinar meu destino.

Há não mais que dez meses fui visitá-la em sua casa. Era noite, eu acabara de abandonar meu emprego e a idéia de alguns dedos deslizando por meus cabelos não parecia tão ruim. Geralmente esse era o tipo de surpresa que deixaria minha namorada em êxtase. Ela me completava, como costuma-se dizer por aí nesses casos. Tinha tudo que eu não possuía. Era eufórica, falante, sorridente, sempre disposta a tudo. E isso era profundamente irritante… Pensando agora, é difícil entender por que estivemos juntos. Enfim, de volta à história.

Cheguei em sua casa para encontrar uma Lúcia ofegante, cabelos bagunçados e olhos arregalados.

-Posso entrar?

- Vincent. O que você faz aqui a essa hora? Não devia estar trabalhando? O quê…

-Pedi demissão, o lugar vai sobreviver sem mim. Posso entrar?

Esqueci de mencionar. Eu trabalhava num daqueles postos de conveniência durante as madrugadas. Um trabalho que estranhamente não condizia com meus sonhos de glória da infância, sejam lá quais tenham sido…

-Meu amor, está tarde. Meus pais estão dormindo, mamãe ficou doente. Não quero incomodá-los.

Mal ela terminou de falar, um carro encosta ao lado do jardim. Um senhor de smoking desce e abre a porta para uma mulher trajando vestido longo. Aparentemente, a mãe de Lúcia se recuperou e foi festejar sem contar à filha.

-Crianças, vocês estão malucas? Esse frio é insuportável. Para dentro! Venha tomar uma xícara de chocolate, Vincent. – disse a mulher de vestido longo

-Vincent já estava de saída, Mamãe. – O constrangimento era quase palpável

-Bobagem. Entre, Vincent, não aceitarei recusas.

Eu estava num misto de curiosidade, preguiça e sono. Se por um lado queria saber o que estava acontecendo, por outro tinha preguiça das possíveis conseqüências de tudo aquilo. A curiosidade acabou falando mais alto. Entrei.

Não chegamos nem mesmo a guardar os casacos. Bastou uma olhadela para dentro e vimos o suposto primo de Lúcia ( ou ao menos era assim que ele foi apresentado a mim por ela certa vez). Sentado no sofá, pés na mesa, dormindo, vestindo nada além de roupa íntima e meias.

Fim do namoro.

Não era a traição que me incomodava, pensei enquanto andava rumo à praça. Lúcia não era importante, não estava irritado com ela. Lúcia representava toda a humanidade. Lúcia era o frívolo, o efêmero e eu queria me livrar disso. Queria livrar-me da humanidade. Qual era a importância de tudo aquilo, afinal? Minha vida não passava de um suspiro irrelevante. Não importa o que aconteça, eu serei esquecido assim como Lúcia, seus pais, meus pais, nossos animais de estimação e tudo que existe ou existiu. Teria eu que cometer um genocídio para ser lembrado por meros 300 anos? Quem sabe pregar uma nova ordem para não ser olvidado em míseros dois milênios? Em todo caso, de que isso me serviria? Ninguém sobrevive realmente nas lembranças. Essa filosofia me parecia nostalgia fantasiosa. Uma lembrança, por mais amada que seja, continua sendo o que é: só uma lembrança. Tanto fazia então que eu fosse uma lembrança morta.

Como eu disse, quando você sabe que vai morrer tudo é como num sonho. Eu estava com uma garrafa de vinho em uma das mãos e não fazia a menor idéia de como a tinha conseguido. Não me entendam mal. Amaldiçoei nosso destino mas dei bênçãos à garrafa.

Tomei consciência de onde estava quando já tinha chegado à praça. Ela é pequena, típica das cidades provincianas como a minha. Nessa praça havia uma queda d’água belíssima incrustada num grande rochedo. É interessante como as pessoas não se sensibilizam mais com as belezas rústicas. A praça estava vazia, sim, mas mesmo que não fosse plena madrugada, dificilmente seria possível encontrar mais que três ou quatro pessoas por ali.

Depois de verter as últimas gotas dos lábios de minha amante momentânea, joguei a garrafa queda abaixo e assisti, parado em sua beirada, os pedaços estilhaçarem. Eles brilhavam como que sinalizando meu destino, a beleza de tudo aquilo não poderia ser maior. O barulho da água, a lua completa em sua majestade, o frio, o brilho dos pedaços da garrafa. Mais um passo e tudo findaria. Mais um passo…

-Precisa fazer agora

Mais um pouco e eu perderia o equilíbrio. Por sorte, ou não, isso não aconteceu.

-O quê? – perguntei irritado

A voz que por pouco não me fez cair era feminina. Vinha de um banco de madeira logo abaixo duma árvore onde eu costumava sentar. A Lua acabara de ser encoberta, não pude distinguir a figura entre sombras.

-Se não fizer agora, será mais difícil na próxima vez.

-De que você está falando? – perguntei com aspereza

-Nem sempre os desejos vencem o instinto humano, às vezes ele acaba arrefecendo o espírito. Se não fizer agora, a derrota para cada nova tentativa se tornará um hábito e o fracasso será costumeiro. O desejo poderia continuar e aumentar ou a resignação suscitada pelas derrotas também – Essas palavras aparentemente solenes foram pronunciadas no mesmo tom de descaso das anteriores – Por isso, se quer mesmo fazer, faça agora.

Levei algum tempo para digerir o que aquela garota havia dito. Não posso me culpar, minha situação naquele momento não era das melhores.

Hesitei enquanto olhava para baixo.

- O que sugere, então? – a pergunta era movida pela curiosidade e irritação. Curiosidade por aquelas palavras que pareciam falar sobre algo aborrecidamente comum. Irritação pela intervenção. Aquele momento deveria ser meu, deveria ser meu momento final e a estranha estava arruinando tudo.

- Como disse, o mais seguro é que faça agora

-Por que pensa saber sobre isso?- depois dessa última pergunta a lua deixou de ser bloqueada, sua luz refletiu de leve nas faces da garota. Não consegui reparar tão bem, mas imaginei ter visto certa expressão de sarcasmo. O rosto era muito branco, os cabelos muito escuros e lisos o destacavam com a ajuda da luz do luar. Parecia bonito. Não pude ver o suficiente naquela primeira vez.

-Falo por experiência

Depois ela simplesmente se levantou e saiu sem qualquer outra palavra. Tive a impressão de que encarou tudo aquilo como algo corriqueiro que se pode ver numa esquina qualquer e é capaz de prender alguns minutos de atenção.

Enquanto ela ia embora, se virou por alguns segundos e me olhou de um modo que pareceu algo de emocionado e resignado, ou quem sabe enfadado, para depois desaparecer nas sombras.

Fiquei parado por algum tempo. Suspirei. Não pularia naquela noite. De alguma forma a maneira como aquela garota havia falado comigo, como havia sorrido, me incomodara.

Olhei de novo para baixo. Estava com preguiça de pular, com preguiça de morrer. Tudo isso parecia estranhamente cansativo. Se ao menos aquela garota não tivesse aparecido…

ÚLTIMOS DIAS DA EUROPA

Um estranho está caminhando pela Terra e cruza com uma senhora, aparentando cansaço e já em avançada idade, sentada numa pedra, cabisbaixa:

O Estranho: Ora, por acaso tu não és Europa, outrora a menina dos olhos desse planeta e dos símios que o habitam?

Europa: Sim, essa costumava ser eu em meus tempos de glória. Minha luz iluminou os cantos mais remotos do orbe azul…

O Estranho: Falas no pretérito, cara senhora. O que houve?

Europa: O tempo, creio. O tempo cruel e inexorável, ardiloso e egoísta. Diante dele, a beleza da mais pura virgem um dia há de definhar, a mais bela das histórias um dia há de se perder. Com o tempo nada perdura, caro andarilho. Nem mesmo eu.

O Estranho: Falas como quem desistiu, cara senhora. Sobre ti, no entanto, ouvi apenas histórias de tua juventude, histórias de inspiração ao heroísmo por conta de tua beleza e encanto. Tuas vestes, sempre cantadas como as mais alvas de todas, veja, estão sujas e rasgadas. Não tens quem lute por ti contra o que chamas de tempo?

Europa: Eu não sou mais que uma idéia, caro andarilho, uma chama que deve ser alimentada. Sobrevivo apenas enquanto houver aqueles que acreditam em mim. Alguns desses ainda existem, especialmente nas mancebas terras além mar, mas não são muitos e talvez não resistam por muito tempo.

O Estranho: E quanto aos que estão junto do teu seio, desafortunada senhora? Aqueles que deveriam protegê-la, uma vez que sob tua égide?

Europa: Esses, os meus filhos mais próximos, nunca foram tão tímidos, caro andarilho. Permitem que eu seja usada contra mim mesma. Homens brutos, bárbaros – mais do que aparentaria ser qualquer touro branco – se apropriam do que eu represento para me destruir em pequenas doses. Eu que costumava ser genitora dos mais valorosos guerreiros desse planeta, que me orgulhava de gestar homens capazes de lutar por idéias num mundo de sombras e violência, não lembro mais como fazer isso. O tempo se aproxima ameaçador e com ele traz novos mundos, mundos de repressão onde eu não passo de um murmúrio tímido e impopular.

O Estranho: Sinto pelo seu destino. Se és mesmo uma idéia, um conjunto de princípios, penso que sobreviverás enquanto existirem aqueles que acreditam em ti, ainda que teu berço seja arruinado. Talvez encontres alento nessa perspectiva.

Europa: Talvez.

O estranho então vai embora, mas não pode conter um sorriso ao pensar nas idiossincrasias dos símios desse planeta azul, presos voluntariamente aos seus próprios erros, eternamente retornando e revivendo suas histórias, sem nada aprender com elas, como já havia notado um desses estranhos macacos…

CONTINUAÇÃO

E assim eu volto para casa. Volto de ônibus. Aliás, houve época que eu tinha um carro. Um carro medíocre, sim, mas um carro. Acho que no meu subconsciente minha mediocridade era meio que mitigada pelo meu igualmente ordinário carro. Mas acho que superei isso. Mais um item da longa lista das coisas para as quais eu deixei de me importar, aquelas para as quais eu não dou mais a mínima.

So, I’m in the bus. Todos estamos amontoados, voltamos feito animais sendo transportados ao abatedouro. A diferença, talvez, é que nesse caso, ao invés de ir, voltamos de lá. A viagem de ônibus, aliás, exige certo espírito estóico. Não bastassem as axilas de estranhos voltadas diretamente para o meu rosto, curiosamente eu tendo a estar sempre ao lado daqueles com as glândulas sudoríparas mais entusiasmadas em mostrar serviço.

But, it doesn’t matter at this point. Sabe aquele olhar opaco e vazio de galinhas empilhadas dentro de uma caixa no caminhão mal cheiroso que segura seu carro no transito? Esses são os meus olhos. Meus e de mais um punhado de outros passageiros. Nesse sentimento, ao menos, não estou sozinho.

-  Por que essa porcaria não anda?

Algum sujeito calvo e obeso – ou careca e gordo – faz a pergunta retórica olhado para mim. Outros passageiros murmuram aprovação. Eu, por outro lado, levanto a cabeça, olho fixamente nos olhos do estranho gordo e digo com a habitual voz de sono:

-  Porque hoje todos querem ter a droga de um carro

O meu colega de carga deve ter se assustado com minhas olheiras ou coisa assim, porque fez uma expressão de nojo e virou o rosto. Estou num estágio da minha vida em que tudo parece meio que um sonho. É como se eu me assistisse falando e só entendesse o que aconteceu depois. Tenho que piscar várias vezes para que o mundo não pareça um simples borrão. Não tenho mais paciência para isso…

-  Parece que alguém está ameaçando pular da ponte – Uma mulher comenta

What a cliche…

Suicídio é algo que sempre me intrigou. Não consigo entender por que as pessoas resolveram apelidá-lo de “a saída dos covardes”. Ora, qual é o maior medo do homem se não a morte? Foram séculos e séculos de evolução e seleção natural só para que gradualmente, milimetricamente, cada fibra de nós fosse constituída com base nesse medo. Reprodução e Medo da Morte, se o homem fosse um CD musical essas seriam suas duas faixas principais.

Para mim, em todo caso, o suicida parece quase um herói. Tem boas chances de ser um verdadeiro iluminado, um cara que vê as coisas com clareza, ainda que esse em especial – o sujeito que obstruía o trânsito – não fosse dos mais criativos. Enfim, todos desceram do ônibus. Eu, como bom entediado sonolento, os acompanho

Antes que eu chegue perto do meio da ponte, a multidão se divide em duas. Feito o judeu maluco do antigo testamento, uma garota vem caminhando pelo espaço aberto no meio da turba. Todos os olhos estão sobre ela. Parando a uns dois passos de mim, ela olha para trás e suspira:

-  Mas que droga. Eu não ia me suicidar. Vocês já se deram conta da vista embaixo dessa ponte? A cachoeira? O barulho? Não tem lugar melhor para beber uma cerveja no final da tarde. For fuck sake…

E então, depois de se virar distraída, ela simplesmente fixa os olhos nos meus. Ficamos assim por alguns segundos. O barulho das pessoas, dos carros, tudo parece diminuir. Ele me olha com aquele olhar cerrado, curioso, de quem acaba de acordar, parece enfadada, pisca uma ou duas vezes e continua andando. Eu, idiota, por outro lado, continuo olhando para ela.

(Parte final do conto, conto inacabado…)

SEM NOME

(Uma das histórias inacabadas. Vou postá-la, provavelmente, em duas partes)

Você acorda. Você faz flexões. Você escova os dentes. Você assiste algum jornal. Você vai trabalhar. Você sorri e aperta mãos. Você volta. Você faz mais flexões. Você vai à faculdade. Você sorri e aperta mãos. Você volta. Você estuda. Você dorme. Você acorda. Você não lembra sobre o que sonhou. Tudo começa outra vez.

Fucking pointless, you know?

Na verdade, ponto há. É dos requisitos da sobrevivência: ganhar dinheiro para se alimentar, se manter and all that crap, but… por quê? Quero dizer, toda essa rotina para que nos tornemos robôs? Para que você seja sugado dentro disso até o ponto em que você não consiga nem mesmo se lembrar quem você é, se transforme em apenas mais um imbecil que não pode ser distinguido na multidão? É, mas é o que acontece. I guess the grown-up world killed the kid inside me…

Well, eu continuava acordando, mas há meses não conseguia me concentrar. Minha última esperança estava nas drogas, acho. Drogas mais fortes, como uma versão extra potente do Prozac ou coisa assim.

Cheguei ao trabalho vestindo camiseta e jeans. Era uma daquelas sextas-feiras, minha vida estava medíocre o suficiente para que o único motivo que me fazia acompanhar o calendário fosse aquele causal wear day, o dia em que não precisávamos vestir sapatos e camisas desconfortáveis ( às vezes me pergunto quem foi o imbecil que decidiu que para aparentar respeitabilidade você precisa se vestir como um masoquista ) e também o dia em que eu poderia, finalmente, me entregar ao ócio.

 -  Bom dia, Johnny. E aí, o que vai fazer de bom no fim de semana?

Como não detestar pessoas assim? Você mal as conhece. Sua convivência com elas é simplesmente obrigatória, um acidente criado por conta do seu trabalho, mas de alguma forma elas acham perfeitamente natural essa espécie de pergunta.

 -  An, hey. Não sei. Não sei ainda. Acho que vou tentar dormir um pouco

 -  Dormir? É fim de semana, cara, você não vai sair?

 -  É, talvez eu tome uma cerveja, não sei mesmo.

(Nessa altura, seu interior está berrando para o cretino indiscreto se calar e te deixar em paz. Mentalmente você pensa em formas de decapitá-lo)

 - Ah, o pessoal vai fazer um happy hour, vamos? Você nunca vai

-  Hum, pena, tenho que visitar minha mãe. Prometi há algum tempo, fica para a próxima

(Minha mãe, mesmo que morta desde os meus 17 ou 18 anos, mantinha suas utilidades post mortem)

ZÉFIROS

Pois é, caros, não sei se é falta de criatividade, paciência ou de ambos, mas não tenho escrito nada ultimamente. Também não estou com muita vontade de falar sobre os temas correntes que geralmente postava no blog.

Sendo assim, acho que nos próximos posts vou colocar alguns contos antigos por aqui, quase sempre inacabados, e depois deixar o Zéfiros em paz por algum tempo. Os posts vão fugir bastante do que o pessoal que acompanha o blog está acostumado, então fica o heads up…

Aqueles que quiserem bater-papo podem me encontrar no e-mail: rpiaia@uol.com.br

Um abraço

EM TEMPOS DE ELEIÇÕES…

“Pois bem! disse eu. É por isso que os homens de bem não querem exercer o governo, nem por dinheiro, nem por honras. É que não querem, por receber à vista de todos um salário pelo governo, ser chamados de mercenários, nem, por tirá-lo furtivamente do governo, de ladrões. E não querem também recebê-lo por causa das honras, pois não amam as honras. Para eles é necessário que haja algo mais, coerção e castigo, no caso de consentirem em governar, e é por isso que pode muito bem acontecer que se considere vergonha pretender, de livre vontade, assumir o governo, sem esperar que haja uma coerção. O maior dos castigos para alguém é ser governado por alguém inferior, quando ele próprio não quer assumir o governo. Aparentemente, é sentindo esse temor que os homens de bem exercem o governo quando o assumem e é nesse momento que assumem o governo, não como se nele buscassem algo de bom ou uma boa vida, mas como se estivessem diante de algo que não podem evitar e como se pudessem entregá-lo a alguém melhor que eles ou a um igual. Se existisse uma cidade de homens de bem, poderia muito bem acontecer que a disputa deles fosse para conseguir ficar fora do governo, como hoje é para assumi-lo; e aí ficaria evidente que realmente o verdadeiro governante, por sua natureza, não tem em vista sua vantagem pessoal, mas a do subordinado”

Platão, A República

SATISFAÇÃO NA RUÍNA

Ontem assisti 500 Days of Summer (ou 500 Dias Com Ela). Para mim, um bom filme é aquele capaz de te afetar emocionalmente. Deixar-te feliz ou miserável, não importa. Julgo um bom filme pelo quanto ele pode mexer comigo. Não sou daqueles, entretanto, que imaginam que um filme por si só seja capaz de levar você a rever posições ou filosofias, esse é o trabalho dos livros e da reflexão.  Filmes, não nego, podem influenciar nessas mudanças, mas creio que seu principal propósito é afetar emocionalmente o espectador, é isso que geralmente espero de um bom filme. O mesmo vale para outras formas de arte.

Isso posto, 500 Days of Summer poderia ter sido excelente, não fosse pelo final. Eu teria retirado o dvd arrasado e detestando a personagem Summer – apesar da Zooey Deschanel ser algo como um amor platônico para mim – não fosse por essa estúpida necessidade de finais felizes.

Por conta disso, estou ainda mais convicto de que dificilmente uma produção do cinema que pretenda ter algum retorno financeiro um pouco maior que o razoável poderá ser palatável. Por qual razão? Porque a alegria das massas não está apenas em não ser induzida ao pensamento, está também em não ser retirada de sua zona de conforto, mesmo que isso exija arruinar o que está bom. Deus sabe, ou saberia se existisse, que para ter sucesso é preciso agradar as massas, é preciso se adaptar a elas.

O problema é recorrente. Há algumas semanas assisti um dos filmes mais bonitos, perturbadores e tristes que vi nesse ano, uma produção sueca chamada Let The Right One In (ou Deixa Ela Entrar). Ouço que os americanos farão um remake dele. Não posso deixar de esboçar um murmúrio desconsolado: por quê?

Tudo tem de ser adaptado aos gostos das massas, entendo. Eu mesmo faço isso algumas vezes. Não sou inteligente ou rico o suficiente para me dar ao luxo de me fechar numa caverna. De qualquer forma, ao menos a arte poderia estar livre disso.

UM CONSELHO

Um amigo me envia e-mail comentando que irá à crisma de sua irmã mais nova.

Eis minha resposta:

Há um pequeno pote com água logo na entrada do prédio, creio. Tome cuidado. Na última vez que entrei numa dessas naves, mimetizei o que os outros estavam fazendo e coloquei dois dedos dentro do pote antes de fazer um sinal na minha testa que imitava um antigo instrumento de tortura. Por algum motivo, minha testa e meus dedos queimaram, queimaduras graves…

Cuidado.

SOBRE A LIBERDADE RELIGIOSA

Bastante simples…

“By all means let an observant jewish adult male have his raw-cut penis placed in the mouth of a rabbi. (That would be legal, at least in New York). By all means let grown women who distrust their clitoris or their labia have them sawn away by some other wretched adult female. By all means let Abraham offer to commit filicide to prove his devotion to the Lord or his belief in the voices he was hearing in his head. By all means let devout parents deny themselves the succor of medicine when in acute pain and distress. By all means – for all I care – let a priest sworn to celibacy be a promiscuous homosexual. By all means let a congregation that believes in whipping out the devil choose a new grown-up sinner each week and lash him until he or she bleeds. By all means let anyone who believes in creationism instruct his fellows during lunch breaks. But the conscription of the unprotected child for these purposes is something that even the most dedicated secularist can safely describe as a sin”

Christopher Hitchens, God is not great

SOBRE LEITURA

Não consigo me relacionar com pessoas que não lêem. Em verdade, tenho dificuldade para suportar mesmo o mais pequeno contato com elas, como os impostos por relações de trabalho ou acadêmicas.

Essas pessoas, as percebo vazias. Não falo apenas de interesses ou conversas, me refiro também a sentimentos. Nota-se a grosseria nas suas manifestações de afeto, frivolidade nas relações amorosas. Por exemplo, tais pessoas hoje podem amar alguém e na semana seguinte mudar o objeto desse suposto amor com naturalidade assustadora, repetindo o processo quase que mensalmente e acreditando, não raro, que você tem interesse em ouvir essas histórias. Amor circunscrito, por vezes, apenas a características físicas do amante. Ou então ao time de futebol ou gosto musical desse, únicos requisitos para o encontro de almas gêmeas ou grandes amigos.

Como dizia, estar próximo a pessoas assim me incomoda, donde se pode inferir que estar próximo da maior parte dos habitantes do planeta me incomoda. Maioria dos casos, salvo honrosas exceções (advindas de infância rural ou simples falta de tempo), condições para informação elas têm, falta-lhes vontade. Preferem Djs a Wagner. Telenovelas a Dumas. Zorra Total a Monty Python. Daí, penso, o motivo para suas relações rasas e seus espíritos vazios. Mas não pretendia falar disso, pretendo falar sobre a diferença entre leitores de manuais e leitores de ficção…

Superada a importância da leitura enquanto gênero, outra questão surge: a diferença entre os leitores de manuais e os que se dedicam ora à ciência, ora aos romances. Os primeiros, a mim, passam a impressão de verdadeiros autômatos, robôs que percebem o mundo de forma monolítica com pouca ou nenhuma subjetividade. Não falo, contudo, de pessoas como Janer Cristaldo, pessoas que após percorrerem todos os clássicos e absorverem essas experiências decidem se focar no estudo científico, abrindo de vez em quando exceções para algum autor dileto como Swift ou Cervantes. Falo de autoridades. Sujeitos mecânicos que não conseguem pisar fora de suas áreas. Quando o fazem, de intelectuais regridem a primatas de passos vacilantes.

Em matéria de formação, entretanto, é isso que distingue leitores de ficção dos demais. Através dos romances posso experimentar o assassinato sem manchar minhas mãos com sangue, basta acompanhar o atormentado Raskólnikov. Posso me embaraçar pelo orgulho doentio e vazio de um homem desesperado, sem que para isso precise sê-lo, basta apreciar Memórias do Subsolo. Posso sentir os sofrimentos de alguém absolutamente consumido pelo amor e obsessão, tanto que caminharei ao suicídio sem que minha morte seja irreversível, basta me debruçar sobre os Sofrimentos de Werther. Posso encarar a hipocrisia das convenções sociais ou a redução ao anarquismo absoluto, contanto que relembre de Meursault ou Tyler Durden. Posso, mesmo, observar a realidade com a percepção de um garoto com síndrome de Asperger, fã de Sherlock Holmes, preciso apenas abrir as páginas de The curious incident of the dog in the night-time. Posso, também, conhecer um futuro ao qual dificilmente chegaria vivo, preciso apenas colher da minha estante alguma obra de Assimov. Posso vagar pela brutal da idade das trevas, pela idade média ou por guerras napoleônicas como se lá estivesse, preciso apenas ser grato a Bernard Cornwell. Posso ver elfos e anões, heróis e magos, orcs e nazgûls, terras que nunca conheceria no insosso mundo real, basta recorrer a Tolkien. As possibilidades são inúmeras.

Se existe alguma maneira de viver várias vidas, milhares de anos e experiências em apenas uma existência, essa maneira é a ficção. Até então a descoberta mais eficaz para se prolongar a duração de um homem.

(Imagem do site http://pbfcomics.com/. Diz o contrário do texto, mas é divertida mesmo assim)

DURA VERITAS SED VERITAS

“Mrs. Forbes at school said that when Mother died she had gone to heaven. That was because Mrs. Forbes is very old and she believes in heaven. And she wears tracksuit trousers because she says that they are more comfortable than normal trousers. And one of her legs is very slightly shorter than the other one because of an accident on a motorbike.

But when Mother died she didn’t go to heaven because heaven doesn’t exist.

Mrs. Peters’s husband is a vicar called the Reverend Peters, and he comes to our school sometimes to talk to us, and I asked him where heaven was and he said, “It’s not in our universe. It’s another kind of place altogether.”

The Reverend Peters makes a funny ticking noise with his tongue sometimes when he is thinking. And he smokes cigarettes and you can smell them on his breath and I don’t like this.

I said that there wasn’t anything outside the universe and there wasn’t another kind of place altogether. Except that there might be if you went through a black hole, but a black hole is what is called a singularity, which means it is impossible to find out what is on the other side because the gravity of a black hole is so big that even electromagnetic waves like light can’t get out of it, and electromagnetic waves are how we get information about things which are far away. And if heaven was on the other side of a black hole, dead people would have to be fired into space on rockets to get there, and they aren’t or people would notice.

I think people believe in heaven because they don’t like the idea of dying, because they want to carry on living and they don’t like the idea that other people will move into their house and put their things into the rubbish.

The Reverend Peters said, “Well, when I say that heaven is outside the universe it’s really just a manner of speaking. I suppose what it really means is that they are with God.”

And I replied, “But where is God?”

And the Reverend Peters said that we should talk about this on another day when he had more time.

What actually happens when you die is that your brain stops working and your body rots, like Rabbit did when he died and we buried him in the earth at the bottom of the garden. And all his molecules were broken down into other molecules and they went into the earth and were eaten by worms and went into the plants and if we go and dig in the same place in 10 years there will be nothing except his skeleton left. And in 1,000 years even his skeleton will be gone. But that is all right because he is a part of the flowers and the apple tree and the hawthorn bush now.

When people die they are sometimes put into coffins, which means that they don’t mix with the earth for a very long time until the wood of the coffin rots.

But Mother was cremated. This means that she was put into a coffin and burned and ground up and turned into ash and smoke. I do not know what happens to the ash and I couldn’t ask at the crematorium because I didn’t go to the funeral. But the smoke goes out of the chimney and into the air and sometimes I look up into the sky and I think that there are molecules of Mother up there, or in clouds over Africa or the Antarctic, or coming down as rain in the rain forests in Brazil, or in snow somewhere.”

Mark Haddon, The curious incident of the dog in the night-time

HOPE FOR HAITI

Ainda quanto ao texto abaixo, ontem, na Warner, dezenas dos maiores nomes do cinema, música e política nos EUA participaram de um especial de duas horas em benefício do Haiti, aos mesmos moldes do especial em benefício às vítimas de 11/09. Não consigo imaginar o Brasil fazendo algo parecido. Não fazemos nem mesmo por nós, menos então por estrangeiros. Em todo caso, se fizéssemos quem participaria? Atores de comédias exibidas nos sábados? Grupos de pagode ou axé?

Nossos soldados mortos voltaram, porém as ruas não pararam em razão disso. Afinal, eles não são jogadores de futebol. Não houve confetes, não houve comoção pública. Não somos, certamente, como os americanos…

Aos que com sarcasmo pedirem que eu me mude para os EUA, escrevo isso por desejar que o Brasil melhore. Dessa forma,  um dia, quem sabe, eu tenha algo pelo que me orgulhar do meu país.

A RELIGIÃO ANTIAMERICANA

Religion is the sigh of the oppressed creature, the heart of a heartless world, just as it is the spirit of a spiritless situation. It is the opium of the people.

 Karl Marx

Os dessalinizadores mais potentes no mundo, reconstrução de portos, toneladas de mantimentos e milhares de homens, bem como recursos para movimentá-los, nada disso merece reconhecimento. Para alguns, a verdadeira intenção dos americanos é ocupar o Haiti.

Por que alguém iria desejar isso é algo para o que não tenho resposta. Sabe-se que o país é intrinsecamente instável. Sabe-se, também, que três mil criminosos fugiram de suas prisões e, segundo relatos, se armaram após a catástrofe. Exibe-se imagens de saques e disputa corporal por comida. Não obstante, alguns bradam que o Haiti precisa agora não de soldados, mas estabilidade, como se essas duas necessidades fossem incompatíveis.

Quantos desses militares americanos são engenheiros, médicos, enfermeiros ou exercem alguma função nesse sentido não é pergunta que interessa aos críticos. Também preferem ignorar que sem soldados não há distribuição ordenada de comida, não há nem pode haver restabelecimento dos serviços básicos ou segurança para os estrangeiros que auxiliam ou desejem auxiliar na reconstrução (ou construção) do país. Importa apenas, aos críticos, tomados por uma espécie de macartismo inverso, denunciar o imperialismo.

Que mais não seja, os mais honestos sabem que fossem 10 mil soldados brasileiros, mexicanos ou coisa do gênero os enviadas para o país, problema algum seria levantado. Ninguém falaria de ocupação. Da mesma forma, os mesmos que criticam os EUA pelo deslocamento dos militares são aqueles que os teriam acusado de omissão por não se envolverem diretamente, caso os americanos resolvessem se limitarem ao envio de comida.

Países como o Haiti não precisam apenas de infra-estrutura, nem apenas de soldados. Precisam de ambos. Para conseguir infra-estrutura, soldados são necessários, ainda que alguns se recusem a admitir.

O sentimento antiamericano – que subentende, também, anticapitalismo e certa dose de aversão ao Ocidente – é como uma religião. Não pode ser enfrentado racionalmente.

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