Fazer as olimpíadas no Rio é o mesmo que fazer as olimpíadas no Iraque. A diferença é que no Iraque você tem o todo-poderoso exército americano para o proteger. No Rio, você tem a polícia carioca…
Blank. Você não tem nada sobre o que escrever. O circo hondurenho piora enquanto jornalistas medíocres ganham amplitude para comentar o imbróglio. Obama continua estóico em seu propósito de instituir o que alguns chamam de “saúde universal” nos EUA. Berlusconi, por nonchalance ou não, refere-se ao ianque como “o moreninho”. Tudo isso e eu não tenho nada sobre o que escrever.
Falta de criatividade é realmente algo ruim – ou não. Sem criatividade o conformismo encontra terreno mais fértil. Se o conformismo é fértil, toda aquela coisa aborrecida que resulta do pensamento é afastada. Angústias, incertezas, tudo desaparece (ao menos eu acho). Sob esse prisma, o problema não parece de todo ruim…
Mas pretendia falar sobre o que me rouba a criatividade. Suspeito que seja saudade de ler ficção. Ou, então, de ler o que quero. No fantástico mundo dos manuais a coisa funciona assim: um determinado senhorzinho diz tal coisa. Outro senhorzinho, que um dia pretende ser tão grande quanto o primeiro senhorzinho, repete a tal coisa, afinal, não se pode questionar a exegese de uma autoridade como aquele senhorzinho. Aos outros (nós), resta fazer coro com a tal coisa. Fazer coro genuflexos e concentrados.
O princípio dos autodidatas também é sumariamente descartado. Tudo deve ser repetido ipsis litteris. Você pode descrever com a maior perfeição, digamos, um macaco. Descrever cada detalhe de sua alimentação, seus hábitos e suas caracteristicas físicas. Mas se resolve chamá-lo de símio ao invés de macaco, se utiliza um nome diferente para uma mesma coisa (a não ser que você seja um daqueles senhorzinhos consagrados), então não atingirá a perfeição. A forma precisa ser atendida. Não basta simplesmente dizer “macaco”. É preciso dizer “macaco” com um joelho levantado e o polegar da mão esquerda tocando a ponta do nariz, tal qual prescreveu um senhorzinho qualquer.
Forma pela forma, essa é a forma.
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(Post com 10 dias de atraso)
Há 178 anos nascia a maior promessa das letras brasileiras, promessa tolhida ainda em sua aurora, esse foi Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Sucumbiu à tuberculose aos vinte anos. Mancebo, já era prodígio nas línguas, na poesia e nos meandros das leis, ainda que, através de Macário, um de seus personagens, tenha confessado a Satã: “Duas palavras só: amo o fumo e odeio o Direito Romano. Amo as mulheres e odeio o romantismo”
Álvares de Azevedo conseguiu a proeza de criar com um dos idiomas mais feios os versos mais belos. A ele essa homenagem.
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(Texto escrito há pouco menos de um ano. O sentimento ainda é o mesmo)
O que significa ser brasileiro? Esse é um dos nossos grandes problemas. Ser brasileiro implica conflito de identidade. A confusão é tamanha que o país recorre aos símbolos e definições mais desesperadas e inconsistentes para criar o sentimento de comunhão nacional.
O que significa ser brasileiro? Em alguns países encontra-se o compatriota através do sangue comum. Noutros, a união entre os nacionais é formada por meio de um suposto passado grandioso, digno de orgulho. E quanto ao Brasil?
Há um adágio oriental que diz algo mais ou menos assim: “Triste é o povo cujos laços se restringem apenas a terra. Uma nação é forjada por algo muito maior do que rios, montanhas e florestas”. Quando não justificamos nosso nacionalismo em coisas grosseiras como futebol ou carnaval, o fazemos no território. Ora, essa é verdadeiramente a questão. Território pode ser tomado, até mesmo destruído. E então? O que seria do brasileiro?
Poucas coisas despertam o sentimento de unidade, ou admiração por ela, como a história de alguns povos. Os judeus passaram séculos dispersos pelo globo sem Estado próprio, ainda assim lograram sobreviver enquanto povo ou nação. Alguém pode imaginar o mesmo com o Brasil e sua população?
Não temos sangue em comum, não temos passado grandioso, não temos nada congênito que nos faça brasileiros. Então, o que é ser brasileiro? Quais são os nossos laços? O que faria com que tombássemos pelo país, ombro a ombro com outros compatriotas, lutando com mais afinco pela nação do que lutam e lutaram as populações de outros países movidas pelo patriotismo tradicional? Certamente, para mim, essa chama não seria acesa pelo futebol, pela “malandragem brasileira”, pelo carnaval ou pelo território. Essa chama só poderia ser acesa por algo superior a todas as formas de identidade mencionadas acima. Essa chama só poderia ser acesa por ideais.
Não existe laço maior ou mais nobre que esse: ideais. Ideais simples até, fundados em três princípios: Liberdade, Individualidade e Justiça. Isso significa julgamento pela conduta. Significa que qualquer pessoa poderia se tornar brasileira de um momento para outro, bastaria crer. Isso faria de nós um povo, o nosso ideal comum. Poderíamos discordar de absolutamente tudo no que concerne a quaisquer outras questões, poderíamos ser expulsos de qualquer território, poderíamos misturar ou não nosso sangue com qualquer outro povo (o que já é fato), apesar disso enquanto essa crença fosse preservada nada superaria o sentimento de unidade e nacionalidade brasileira .
Alguns podem dizer que isso já ocorre. Não sei. Pessoalmente acredito que a maioria dos brasileiros não faz idéia do que é que os transforma em tais além de futebol, carnaval e florestas. Podem falar algumas vezes sobre “mistura” sem retirar nenhuma grande mensagem disso, sem entender que ela por si só é irrelevante.
Países existem que se pautam nessa boa espécie de sentimento nacional. Os EUA, em sua essência, por exemplo. Creio que o Brasil ainda está muito distante dessa forma de união.
Enfim, acabei divagando demais. Acho que, por enquanto, não temos vínculos que formem nossa identidade e o recurso à figura do índio ou ao ufanismo de práticas primitivas resultam do anseio por essa busca pelo retrato nacional. Enquanto o país não solidificar ideais atemporais que o tornem digno de orgulho, pautando a própria conduta de seu povo, não vejo muito do que me orgulhar ou com que me identificar por aqui. Acaba-se com o sentimento de que você é mais europeu, ou americano, ou ocidental do que necessariamente brasileiro.
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Vejo nos corredores da universidade avisos alertando sobre a lei estadual que proíbe o fumo naquele local. No bar, um colega elogia a lei e comenta sobre como o ambiente a nossa volta está melhor graças à proibição paulista. Cumpre dizer, entretanto, que universidade, colega e populares se esquecem que fumar em tais lugares, desde 1996, sempre foi proibido. É o caso de alertá-los sobre atraso nos elogios.
Fumar em locais públicos ou privados, onde há conjunto de pessoas, é conduta vedada há mais de uma década. A única novidade introduzida pela inconstitucional e supérflua lei paulista – além de banir os fumódromos – foi instituir a obrigatoriedade de fixar avisos sobre essa proibição. Isso significa, como de costume, que a solução dos problemas desse país pouco sério que conhecemos por Brasil não está na criação de novas leis, mas simples aplicação das já existentes. Alguém tem paciência para explicar isso ao povo?
A competência dos estados federados para legislar nessa questão é meramente suplementar em relação à norma geral da União. Suplementar, não superior. Exatamente por isso a superveniência de lei federal no que tange à defesa da saúde suspende a eficácia de qualquer norma estadual naquilo que lhe é contrária. Sendo assim, membros da União não podem proibir aquilo que esta União permite. Que mais não fosse, negar aos paulistas o que é livre aos demais brasileiros (manter seus fumódromos) é violar a garantia fundamental da igualdade.
Por mais inocente que seja a intenção, o sujeito que se aproxima de mim para elogiar os efeitos dessa proibição conquista meu mais profundo desprezo. O conquista não apenas por ceder à imolação estatal sua própria liberdade com um sorriso agradecido nos lábios, mas principalmente por entregar, nesse pacote, também a minha.
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Acabo de voltar do Baguete. Impressionante! A cada pedrada que o Janer joga, uma nova revoada de ecólogos se forma. Forma-se, veja só, exigindo a cabeça dele. Quase posso imaginá-los levantando foices e tochas enquanto comem tofu.
Para quem não acompanhou a contenda, Janer escreveu um artigo (http://www.baguete.com.br/colunasDetalhes.php?id=3140) denunciando a curiosa predileção que ecólogos, ornitólogos e ambientalistas têm aos pássaros e macacos em detrimento de seres humanos. Comentou inclusive sobre uma ONG estrangeira que conseguiu vetar um projeto indiano destinado a abastecer por volta de 40 milhões de pessoas com energia elétrica e água potável (as salvando do consumo de água podre e esterco de vaca) sob a seguinte justificativa: “Não queremos que aquelas populações (populações indianas) adquiram os hábitos de consumo do Ocidente”. A representante da ONG fez tal declaração , como já é praxe, direto do conforto de seu apartamento no Ocidente. Apartamento onde desfruta de água limpa e aquecida provavelmente sem nem mesmo perceber, tão acostumada que está a essas comodidades. E então o leitor me pergunta: o que o Janer disse sobre essa história? Ora, o Janer, caro leitor, o maléfico Janer, se opôs ao histerismo dos que abraçam árvores enquanto chutam crianças. Pois é, ele é mesmo um sujeito perverso…
Esse ódio ao homo sapiens não é tão novo nem difícil de explicar. Aliás, fácil de explicar mas difícil de entender. Penso que essas pessoas têm aversão por si mesmas, ou talvez estejam apenas muito vazias, tão vazias que buscam alguma causa – qualquer uma - que as preencham. Há pouco, comentei em outro artigo sobre a ex-vice-presidente da organização PETA (aquela entidade que luta contra as pesquisas científicas que utilizam animais). Essa senhora, gigante da coerência, só pode tratar a diabetes que a acomete graças a um tratamento desenvolvido com o uso de animais. Isso constrange os heróis da PETA? Nope! A presidente do grupo , Ingrid Newkirk, já afirmou que mesmo se das pesquisas com animais resultasse a cura para a AIDS, eles permaneceriam contrários a elas.
Dias atrás, em algum canal a cabo, eu assistia à propaganda de um documentário sobre o tratamento bárbaro dispensado aos animais em abatedouros. Até aí, a coisa ia bem. Crueldade desnecessária é sempre estúpida. Ocorre que então um rapaz apareceu relatando repleto de orgulho o momento de sua maior epifania. Disse algo mais ou menos assim: “Um belo dia me perguntei: por que as vidas das pessoas seriam mais importantes que a do meu cachorro?” Foi essa minha deixa para mudar o canal.
O Janer chegou a comentar que ecólogo é uma daquelas profissões não regulamentadas,ou seja, assim como astrólogos e psicanalistas, qualquer um pode se declarar profissional dessa área. Um dos tree huggers se escandalizou: “Respeite também quem escolheu as profissões que o sr, destratou. PRECONCEITO é crime!!!!“
Inseguros, histéricos e buscando uma ideologia para viver, eis alguns dos garotos que cresceram assistindo demais aos desenhos do Capitão Planeta. Apesar disso, uma serventia, admito, eles têm. São realmente divertidos.
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Caro Aubert,
Charlie demonstra com tom crítico o estado atual das coisas. A já desenvolvida idéia de que ser branco é sinônimo de vergonha, vide os garotos por aí, especialmente nos EUA, que agem, falam e se vestem como “negros”. São modos grosseiros e enaltecidos, considerados dignos de orgulho. Você não escutará, Aubert, brancos mencionando com esse mesmo orgulho sua origem, isso causaria desconforto nos círculos sociais. O mesmo não vale para as outras etnias. Quando é feita alguma matéria sobre, digamos, eventos culturais em SC ou RS, os jornalistas sentem-se obrigados sempre a encontrar um negro ou nordestino qualquer para colocar no meio do evento, caso contrário correm o risco de ofender a “diversidade brasileira”. Contudo, dificilmente se sentirão também compelidos a encontrar um loiro para dançar frevo em Pernambuco, afinal, na visão deles, brancos não precisam de proteção, já são excessivamente privilegiados. Nossa própria constituição, em seu artigo 215, parágrafo 1, consagra essa primazia dos não-brancos: “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório [sic] nacional”. Nenhuma menção aos europeus. Seria de se pensar que a cultura européia foi irrelevante para a formação do Brasil. Ora, se esse é o caso, em que contribuíram ao chamado processo civilizatório as culturas indígenas e africanas? No máximo, serviram como exemplo do que não deve ser feito.
O ponto central na diferença dos tratamentos, penso, é a falaciosa idéia de que caucasianos sempre terão suas conquistas facilitadas por sua cor. Já os negros, quando conquistam algo, o fazem apesar dessa cor. Ou seja, não ser branco serve como eterno pretexto para justificar qualquer espécie de falha. Desse modo, brancos, num aparente paradoxo, estão entre os poucos que ainda são obrigados a encarar a meritocracia de frente. Dito isso, quem então, cabe perguntar, enfrenta o caminho mais difícil? Quem detém, de fato, privilégios?
Quanto à chamada “dívida histórica”, parece-me que as pessoas ainda estão muito ligadas à herança de Eva e Adão, talvez seguindo apenas a mesma visão de mundo que tinha Jeová: a idéia de que um crime pode ultrapassar a pessoa do criminoso, estendendo-se a toda sua descendência. Ainda assim, há uma pergunta que se impõe, qual é o tamanho desse crime? Certa vez perguntaram a Bernard Cornwell – para mim o maior storyteller de nossos tempos – se ele achava que os ingleses deveriam pagar compensação ao mundo pelos males que cometeram em épocas das colônias. Muito gentil e elegante, ele respondeu que concordava completamente com a idéia, contanto que ela funcionasse para ambos os lados. De acordo com essa sugestão, os ingleses pagariam por tudo que retiraram e todo mal que fizeram às suas antigas colônias e ao mundo, porém o resto do mundo deveria se comprometer igualmente a pagar pelo que recebeu. Parlamentarismo, Estado de direito, leis, futebol, noções de civilidade, tudo seria debitado ao globo. Continuando, ele perguntou: “Shakespeare também é bastante apreciado, não? Então acho que deveriam pagar por ele também” No fim das contas, Aubert, suspeito que os ingleses sairiam com saldo positivo. Nós quem teríamos que pagar a eles.
O caso do Papa, no entanto, é diferente. Religião não é uma característica inata. Religião é manifestação volitiva, é resultado de escolha. Uma vez que alguém professa a fé católica, recebe com isso todo o legado da sua líder espiritual, inclusive seus crimes. Logo, em nome dessa Igreja é apenas natural que o Pontífice – como pretensa ponte entre os mortais e os céus – deva se desculpar pelas barbaridades cometidas ou endossadas por ela. Isso ocorre exatamente porque ninguém é obrigado a se converter ao catolicismo, bem como ninguém é obrigado a se transformar em nazista. Se o sujeito resolve escolher um desses caminhos, todavia, responde também pela história deles.
Sobre os caranguejos, pássaros e macacos que são considerados mais importantes que seres humanos, a razão me parece muito simples: o politicamente correto, quando compara brancos e não-brancos, é racista. Mas quando compara humanos com animais, não é. A coisa quase chega a ser divertida, quase…
Abraço
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Não entendi bem o post do Charlie.
Não entendi se ele é a favor ou contra as minorias.
Pessoalmente fico irritado com essa montanha de bobagens de desculpas e de mea culpas por atos que viraram história.
É quilombola, indígena, negro, judeu, católico, protestante, indú, sendo alvo de atos de contrição intermonáveis e que não servem para absolutamenta nada, a não ser políticamente corretos.
Eu não me sinto nem um pouco culpado que meu avô, na Rúsia, tinha um batalhão de servos a seu dispor.
Como não vejo porque um Cavalcanti de Albuquerque de hoje deva reparações aos bisnetos dos escravos que lhe serviam.
Por que o Papa tem que pedir desculpas aos perseguidos pelo Santo Ofício?
Se for assim, os macedônios de hoje deveriam reparar os atos de Alexandre, ou os gregos deveriam pedir perdão aos troianos.
A coisa vai chegar a um ponto que Caim seja condenado por matar Abel, e dvolver o prato de lentilhas com juros e correção.
Eu também não entendo porque 600 carangueijos seriam mais importantes do que um resort, que criaria 3000 empregos diretos e traria progresso e investimentos; não que eu não goste de carangueijos.
História é história e não tem nada que se possa fazer para mudá-la.
Pedir desculpas? Não vai servir para nada.
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Ser minoria, hoje, é ser privilegiado. Legal e moralmente falando. Existe toda uma dignidade em ser “afro” ou indígena, como se dotado de alguma condição superior inata. E existe uma discreta vergonha em ser branco de olhos claros, como se tocado por algum pecado original. Aliás, é exatamente isso: nossa sociedade abraçou uma idéia de pecado original, chamada “dívida histórica”. A tal da dívida recai sobre todos os que possuem pele clara, olhos claros ou que simplesmente não sejam negros ou índios. São os impuros do mundo. A pureza encontras na favela, na savana, na floresta.
Rousseau vive!
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O policial Crowley é chamado para atender uma ocorrência de possível invasão de domicílio. Ao chegar no local, um homem que já está dentro da casa alega aos gritos ser o proprietário dela, tendo forçado a porta dos fundos por não encontrar suas chaves. Quando o policial pede mais informações, o homem o acusa de racismo e faz comentários ofensivos sobre a mãe de Crowley, terminando com a velha ameaça: “você não sabe com quem está lidando!”.
A princípio, a situação parece bastante simples. Diríamos que trata-se apenas de um sujeito descontrolado que foi detido por desacatar um policial sem nenhuma justificativa razoável. Ocorre que o homem detido, como é possível pressupor pelo relato acima, é negro. O policial, branco. Acrescente-se a isso que o homem negro é Henry Gates, professor de Harvard e amigo pessoal de Obama. Pois é, isso foi o suficiente para complicar as coisas…
Interessante também foram as reações dos jornais mundo afora, inclusive os nossos. Não houve menção alguma ao fato de Crowley ser o responsável pelo curso que instrui seus colegas policiais a não serem influenciados por estereótipos raciais quando fazem uma prisão, menos ainda de que o superior de Crowley – quem o indicou para esse cargo e o apóia – é negro. Em verdade, apenas se falou em policiais brancos prendendo um professor de Harvard negro. Prendendo o professor, veja só, em sua própria casa. Prova cabal de que o racismo persiste nos EUA.
Há tempos as minorias se tornaram incensuráveis. Não mais se aceita que um negro possa ser parado porque seu carro se encaixa com a descrição de um veículo roubado, ou porque o sujeito excedeu o limite de velocidade. A única explicação para a polícia parar um negro ou qualquer outro membro de uma das chamadas “minorias”, aparentemente, só pode ser o racismo. Com isso, aqueles que pretendem gozar de passe livre para a universidade (ainda que pelas portas dos fundos) ganham também pretexto amplo inclusive para infringir as leis, eternas vítimas do sistema, mas nunca de suas escolhas pessoais. Pena para aqueles que não possuem o privilégio de culpar, ad nauseam, outros pelos seus problemas. Esse dificilmente é privilégio para brancos. Realmente curiosas essas minorias que têm mais força e representantes do que a passiva e suposta maioria.
Mas falava sobre o caso do professor Gates. Obama, apesar de defender amigo no início, teve honestidade suficiente para recuar e convidar ambos (policial e professor) para algumas cervejas. Atitude louvável. Até então, ainda que possivelmente escorregue na política econômica, Obama tem se saído bem.
Quem se interessar sobre a etimologia da palavra “privilégio” pode dar uma olhada no último post do Charlie, no Bunker: http://o-bunker.blogspot.com/
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Esse texto vem um pouco tarde, mas tive que esperar o filme sair em DVD. Não é que eu não goste de cinema, só não gosto de pessoas.
Walt Kowalski é um viúvo de certa idade que está pouco satisfeito com o rumo que seu bairro – e por conseqüência seu país e seus tempos – tem tomado. Ele é o único homem branco que restou numa região tomada por asiáticos com costumes estranhos que ele despreza. Considerado ranzinza por seus filhos, após a morte de sua esposa ele resolve continuar vivendo sozinho em sua antiga casa, uma das poucas que ainda ostenta a bandeira americana na varanda. Relutante, acaba se envolvendo e enxergando qualidades em alguns daqueles vizinhos.
O filme relembra valores já esquecidos. Relembra a importância do trabalho braçal, da sabedoria rústica, do respeito à propriedade, do sacrifício, da amizade e, principalmente, da importância de um role model (por falta de palavras que traduzam melhor o sentido). Walt supera as diferenças superficiais que o distingue dos seus vizinhos para alcançar junto com eles princípios maiores, princípios universais. Mostra assim que a família (ou o que chamamos de povo) não está restrita apenas àqueles com quem partilhamos sangue.
Gran Torino é um dos filmes que não vemos mais por aí. É conservador? Sim, mas conservador só com o que vale a pena conservar.
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Levítico 20: 13 Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles.
Não me parece exagero tratar a religiosidade como uma doença. Um vírus altamente contagioso e mutável, sempre se adaptando para sobreviver. É claro que os crentes que ouvirem isso vão se indignar, mas eu não disse que as pessoas são obrigadas a cuidar dessa doença.
Há pouco o Janer comentou em seu blog sobre a sra. Rozângela Alves Justino, psicóloga ameaçada de perder seu registro no Conselho Federal de Psicologia por oferecer tratamento aos que “estão homossexuais”. Para sra. Justino, homossexualismo é uma doença que, como tal, pode ser curada. A psicóloga, que claramente é evangélica, decerto discordaria quando eu avento que a religiosidade pode ser uma doença. Da mesma forma que discordo quando ela afirma, no alto da parvoíce da qual só os crentes são capazes, que homossexualismo é um vício. E ficamos nisso. É assim mesmo que as coisas funcionam. Afinal, ninguém é forçado a procurar os serviços da sra. Justino.
É sabido que na internet encontra-se de tudo, desde figuras como Olavo de Carvalho até cópias um pouco mais vulgares dele – se é que isso seja possível. Rozângela é uma delas, síntese perfeita de carolas conservadores (ou direita cristã). Deve ser calada e ter seu registro cassado por isso? Evidente que não. Manifestar crença e opinião livremente é fundamento básico de qualquer democracia. No Brasil, apesar de tudo, é garantia constitucional. Ocorre que o politicamente correto já vai tão avançado em nossas terras que opiniões que não gozem de aprovação das chamadas minorias transformam-se imediatamente em injúria. Se você entende que a cultura africana não fez nenhuma contribuição relevante ao mundo que se equipare às européias, não poderá lecionar. Se você não aceita que a construção de uma canoa ou oca seja tão importante quanto de um aqueduto ou navio transatlântico, também não. Nesses dois casos, trata-se de meras observações que levam a conclusões óbvias, porém politicamente incorretas. No caso da psicóloga Justino, longe de termos uma observação, tem-se uma opinião subjetiva e estúpida, porém também politicamente incorreta. Acontece que, como já dito, ser estúpido é prerrogativa dos homens livres. Mesmo quando essa estupidez subjetiva e cretina vai de encontro ao politicamente correto.
Entre gente como Luiz Mott – um dos líderes do movimento gay brasileiro – e esse pessoal não há muita diferença. De um lado está um militante homossexual imbecil que não se importa em divulgar o endereço de seus inimigos ideológicos a qualquer maluco que tenha interesse em procurá-los, do outro alguns sujeitos que curiosamente gastam tempo demais se preocupando com as práticas sexuais alheias. Pensem no Júlio Severo, por exemplo. Não sei se eu sentiria orgulho em ter meu nome, sempre, automaticamente associado à luta contra a “pérfida imoralidade dos gays”. Especular que esses crentes têm uma grande chance de serem mal resolvidos não é argumentação ad hominem, mas um raciocínio bastante razoável.
Quando eu digo que esses fundamentalistas são aliados involuntários da esquerda, me refiro também a coisas assim. É por essas e outras que ainda hoje muitos acreditam que as esquerdas detêm o monopólio da moral e da justiça. Contudo, esse é um dos preços da liberdade. Contanto que ninguém seja arrastado ao consultório da sra. Rosângela Justino, por que ela não deveria tentar trazer de volta à heterossexualidade aqueles que voluntariamente a procuram? Se seus pacientes se sentem culpados por suas escolhas sexuais a ponto de procurá-la, provavelmente se preocupam em serem coerentes com sua fé, de modo que ou devem abandonar o prazer ou a religião. Para mim a resposta a esse dilema seria fácil, entretanto essa é uma escolha que só eles podem fazer.
Enfim, que mais não fosse, se o repúdio ao homossexualismo ou a incitação ao que alguns entendem como homofobia forem efetivamente criminalizados, o livro que fundamenta toda a fé cristã, no mínimo, precisará ser proibido. E, caros, se proibirem a bíblia, o que poderemos ler quando quisermos nos divertir?
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Um amigo mais novo que trabalha comigo, garoto com os seus dezessete anos e de família católica, na semana passada me acusou afetando tom de revolta na voz: “Vê? Eu sou ateu, o que você fez comigo?”. A brincadeira rendeu algumas risadas, mas pensando depois, a resposta apropriada que eu deveria ter oferecido era essa: Ora, meu caro, eu não fiz nada. Quem fez foi você.
E essa é a verdade quando o assunto é religião. Ninguém faz ninguém se tornar ateu (ou voltar a ser ateu, uma vez que todos nascemos assim) esse é um caminho que se escolhe sozinho, por si só. Gente existe em quem podemos despejar quilos de livros, recorrer a argumentos com o mais consistente embasamento científico e apontar milhares de contradições na religião, o sujeito ainda assim permanece refratário a qualquer lampejo de razão, por mais tímida que essa fagulha seja. Superstições, por isso mesmo, são irracionais. Não é possível obrigar ninguém a genuinamente abandonar sua crendice, o máximo que podemos fazer é oferecer ferramentas para tanto.
Penso que essa escolha pela racionalização pode ser uma tendência natural de alguns indivíduos, talvez o próximo passo da evolução. Ou seja, entender que a religião não é necessária para que permaneçamos morais. Assim não fosse, nossa moralidade decorreria unicamente do temor de um big brother onisciente e vingativo de barba branca, não da crença sincera de que o que fazemos, fazemos porque nos parece correto para a boa convivência social. Curiosamente, não é assim que muitos teístas parecem pensar. Vêem um ateu e logo se perguntam por que diabos aquele sujeito se sentiria impelido a respeitar o próximo, ser honesto ou minimamente moral. Afinal, “se deus não existe, tudo é permitido”. Se ninguém nos está vigiando a cada segundo e nenhuma punição maligna nos aguarda no outro mundo, que venha então a anarquia. Papai não está em casa.
Ver adultos incapazes de assumir responsabilidade por suas escolhas é para mim um bom convite ao mais profundo asco. Pessoas assim encontramos todos os dias. Elas são fumantes que aplaudem quando o governo proíbe o fumo, são eleitores que louvam quando ditaduras se instalam e são teístas que adoram que seu deus os puna. Já adultos, essa gente ainda se comporta como moleques incapacitados. Terão sua individualidade tomada e a entregarão com um sorriso agradecido nos lábios.
Não faz muito tempo, numa mesa de bar, amigos me perguntaram o que fazia com que eu – um ateu – fosse moral. O que me impedia de ser desonesto ou sair por aí matando pessoas? Ora, se não as leis, o fato de que desejo viver numa sociedade razoavelmente civilizada deveria ser o suficiente. E o motivo do teísta, não é o mesmo que o meu? Pois é, aparentemente não.
Mas falava de meu amigo que voltou a ser ateu. Em verdade, não são todos que conseguem fazer esse retorno. Não suportam a equivocada sensação de desamparo, a idéia de estarem completamente sozinhos. Por outro lado, ninguém é tão livre como um ateu. Conforme já comentei em outros textos, ateus não acreditam em pecados, logo, não podemos pecar. Somos santos, mas santos livres.
Tudo acaba dependendo do modo como você vê as coisas. Ateísmo pode ser uma escolha simples para alguns. Para outros, um verdadeiro suplício. Creio que a maioria dos ateus gostaria de acreditar que existe algo após a morte. Que tudo não está restrito a esse lodaçal que chamamos realidade. Ao menos é esse meu caso. Ocorre que talvez os ateus queiram tanto acreditar que existe algo além - que seus queridos não se perderam e tudo pode ser curado - que não aceitam se enganar. Não aceitam nada que não traga evidências concretas. Nada que seja apenas wishful thinking. Pode parecer um caminho complicado, mas não deixa de ser libertador. Quando voltamos a ser ateus os mistérios do universo, na verdade, acabam aumentando.
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Escreve em sua última crônica o astrólogo Olavo de Carvalho sobre si próprio:
“Mas também é verdade que, após tantos exemplos que forneci com provas cabais, aqueles que tendem a concordar comigo teriam a obrigação de usar sua própria inteligência, de fazer suas próprias pesquisas e de me ajudar nesse esforço inglório em vez de sobrecarregar com uma multiplicidade de tarefas miúdas aquele que tem deveres mais altos a cumprir.”
Olavo de Carvalho, aquele que guarda o futuro do mundo Ocidental em suas mãos…
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