“Pois bem! disse eu. É por isso que os homens de bem não querem exercer o governo, nem por dinheiro, nem por honras. É que não querem, por receber à vista de todos um salário pelo governo, ser chamados de mercenários, nem, por tirá-lo furtivamente do governo, de ladrões. E não querem também recebê-lo por causa das honras, pois não amam as honras. Para eles é necessário que haja algo mais, coerção e castigo, no caso de consentirem em governar, e é por isso que pode muito bem acontecer que se considere vergonha pretender, de livre vontade, assumir o governo, sem esperar que haja uma coerção. O maior dos castigos para alguém é ser governado por alguém inferior, quando ele próprio não quer assumir o governo. Aparentemente, é sentindo esse temor que os homens de bem exercem o governo quando o assumem e é nesse momento que assumem o governo, não como se nele buscassem algo de bom ou uma boa vida, mas como se estivessem diante de algo que não podem evitar e como se pudessem entregá-lo a alguém melhor que eles ou a um igual. Se existisse uma cidade de homens de bem, poderia muito bem acontecer que a disputa deles fosse para conseguir ficar fora do governo, como hoje é para assumi-lo; e aí ficaria evidente que realmente o verdadeiro governante, por sua natureza, não tem em vista sua vantagem pessoal, mas a do subordinado”
Platão, A República