E assim eu volto para casa. Volto de ônibus. Aliás, houve época que eu tinha um carro. Um carro medíocre, sim, mas um carro. Acho que no meu subconsciente minha mediocridade era meio que mitigada pelo meu igualmente ordinário carro. Mas acho que superei isso. Mais um item da longa lista das coisas para as quais eu deixei de me importar, aquelas para as quais eu não dou mais a mínima.
So, I’m in the bus. Todos estamos amontoados, voltamos feito animais sendo transportados ao abatedouro. A diferença, talvez, é que nesse caso, ao invés de ir, voltamos de lá. A viagem de ônibus, aliás, exige certo espírito estóico. Não bastassem as axilas de estranhos voltadas diretamente para o meu rosto, curiosamente eu tendo a estar sempre ao lado daqueles com as glândulas sudoríparas mais entusiasmadas em mostrar serviço.
But, it doesn’t matter at this point. Sabe aquele olhar opaco e vazio de galinhas empilhadas dentro de uma caixa no caminhão mal cheiroso que segura seu carro no transito? Esses são os meus olhos. Meus e de mais um punhado de outros passageiros. Nesse sentimento, ao menos, não estou sozinho.
- Por que essa porcaria não anda?
Algum sujeito calvo e obeso – ou careca e gordo – faz a pergunta retórica olhado para mim. Outros passageiros murmuram aprovação. Eu, por outro lado, levanto a cabeça, olho fixamente nos olhos do estranho gordo e digo com a habitual voz de sono:
- Porque hoje todos querem ter a droga de um carro
O meu colega de carga deve ter se assustado com minhas olheiras ou coisa assim, porque fez uma expressão de nojo e virou o rosto. Estou num estágio da minha vida em que tudo parece meio que um sonho. É como se eu me assistisse falando e só entendesse o que aconteceu depois. Tenho que piscar várias vezes para que o mundo não pareça um simples borrão. Não tenho mais paciência para isso…
- Parece que alguém está ameaçando pular da ponte – Uma mulher comenta
What a cliche…
Suicídio é algo que sempre me intrigou. Não consigo entender por que as pessoas resolveram apelidá-lo de “a saída dos covardes”. Ora, qual é o maior medo do homem se não a morte? Foram séculos e séculos de evolução e seleção natural só para que gradualmente, milimetricamente, cada fibra de nós fosse constituída com base nesse medo. Reprodução e Medo da Morte, se o homem fosse um CD musical essas seriam suas duas faixas principais.
Para mim, em todo caso, o suicida parece quase um herói. Tem boas chances de ser um verdadeiro iluminado, um cara que vê as coisas com clareza, ainda que esse em especial – o sujeito que obstruía o trânsito – não fosse dos mais criativos. Enfim, todos desceram do ônibus. Eu, como bom entediado sonolento, os acompanho
Antes que eu chegue perto do meio da ponte, a multidão se divide em duas. Feito o judeu maluco do antigo testamento, uma garota vem caminhando pelo espaço aberto no meio da turba. Todos os olhos estão sobre ela. Parando a uns dois passos de mim, ela olha para trás e suspira:
- Mas que droga. Eu não ia me suicidar. Vocês já se deram conta da vista embaixo dessa ponte? A cachoeira? O barulho? Não tem lugar melhor para beber uma cerveja no final da tarde. For fuck sake…
E então, depois de se virar distraída, ela simplesmente fixa os olhos nos meus. Ficamos assim por alguns segundos. O barulho das pessoas, dos carros, tudo parece diminuir. Ele me olha com aquele olhar cerrado, curioso, de quem acaba de acordar, parece enfadada, pisca uma ou duas vezes e continua andando. Eu, idiota, por outro lado, continuo olhando para ela.
(Parte final do conto, conto inacabado…)
Não acredito que deixou a história por aqui? rs
Cadê a continuação??
Sinto que esse sujeito da história necessita de algo que ilumine sua vida, que lhe de vontade de sair de casa ao menos… É triste quando levamos a vida no modo automático, simplesmente porque temos que “vivê-la” de alguma forma…
E talvez com o aparecimento dessa guria em sua vida, que também é um tanto estranha, ele encontre o que lhe falta, e sua vida se tornasse um pouco mais alegre.
Não há nada pior do que, a vontade de não viver, e a incapacidade para sonhar, para colorir seus dias… pois tudo fica mais fácil quando há alguém em sua vida, que o inspira a querer tudo isso.
Mas o conto, apesar de ter um ar, não digo macabro, mas frio e triste, está bem escrito, e merece uma continuação…
Você já leu ou assistiu Fight Club, Jessy? O conto parece meio triste – e até é, na verdade – mas a idéia era puxar mais para o lado da insatisfação com a rotina, as convenções sociais e tudo o mais, algo parecido com o que o Palahniuk fez com o Clube da Luta, um dos meus filmes favoritos. Não deixa de ter certa dose de humor meio negro.