O Estranho: Ora, por acaso tu não és Europa, outrora a menina dos olhos desse planeta e dos símios que o habitam?
Europa: Sim, essa costumava ser eu em meus tempos de glória. Minha luz iluminou os cantos mais remotos do orbe azul…
O Estranho: Falas no pretérito, cara senhora. O que houve?
Europa: O tempo, creio. O tempo cruel e inexorável, ardiloso e egoísta. Diante dele, a beleza da mais pura virgem um dia há de definhar, a mais bela das histórias um dia há de se perder. Com o tempo nada perdura, caro andarilho. Nem mesmo eu.
O Estranho: Falas como quem desistiu, cara senhora. Sobre ti, no entanto, ouvi apenas histórias de tua juventude, histórias de inspiração ao heroísmo por conta de tua beleza e encanto. Tuas vestes, sempre cantadas como as mais alvas de todas, veja, estão sujas e rasgadas. Não tens quem lute por ti contra o que chamas de tempo?
Europa: Eu não sou mais que uma idéia, caro andarilho, uma chama que deve ser alimentada. Sobrevivo apenas enquanto houver aqueles que acreditam em mim. Alguns desses ainda existem, especialmente nas mancebas terras além mar, mas não são muitos e talvez não resistam por muito tempo.
O Estranho: E quanto aos que estão junto do teu seio, desafortunada senhora? Aqueles que deveriam protegê-la, uma vez que sob tua égide?
Europa: Esses, os meus filhos mais próximos, nunca foram tão tímidos, caro andarilho. Permitem que eu seja usada contra mim mesma. Homens brutos, bárbaros – mais do que aparentaria ser qualquer touro branco – se apropriam do que eu represento para me destruir em pequenas doses. Eu que costumava ser genitora dos mais valorosos guerreiros desse planeta, que me orgulhava de gestar homens capazes de lutar por idéias num mundo de sombras e violência, não lembro mais como fazer isso. O tempo se aproxima ameaçador e com ele traz novos mundos, mundos de repressão onde eu não passo de um murmúrio tímido e impopular.
O Estranho: Sinto pelo seu destino. Se és mesmo uma idéia, um conjunto de princípios, penso que sobreviverás enquanto existirem aqueles que acreditam em ti, ainda que teu berço seja arruinado. Talvez encontres alento nessa perspectiva.
Europa: Talvez.
O estranho então vai embora, mas não pode conter um sorriso ao pensar nas idiossincrasias dos símios desse planeta azul, presos voluntariamente aos seus próprios erros, eternamente retornando e revivendo suas histórias, sem nada aprender com elas, como já havia notado um desses estranhos macacos…